CONTO: A PORTA, Willa Costa


"Não importava para onde eu fugia, lá estava ela. Sua presença agourenta minava minha existência a cada passo forçado entre o formigueiro humano a minha frente.

Fazia o quê? Seis, sete anos? Não sei ao certo. É um desses números cabalísticos que nos impressionam durante horas de documentários sensacionalistas de terceira. Começou quando eu recebi um pacote em meu escritório. O remetente era de uma tia maluca que eu não via há séculos.

Dentro do pacote havia uma agenda antiga de 1977. Capa de couro, páginas amareladas e aquele cheiro de ácaro que impregna no nariz.

O conteúdo era bizarro. Desenhos profanos, símbolos desconhecidos e palavras repletas de amargura, ódio e falta de sentido. Nenhuma carta veio junto.

Liguei para a tia após perder duas horas tentando descobrir seu telefone. Uma mulher atendeu e logo reconheci a voz de minha prima Dandara. Ela me contou que a mãe dela havia falecido uma semana antes. Comovido, prestei minhas homenagens e a alertei sobre a agenda, insistindo que devolveria para ela.

- Não, não. Fique com ela – Dandara recusou – Mamãe enviou vários pertences a familiares e amigos antes de partir. Ela dizia que precisava deixar tudo para trás, sabe?

- Compreendo, prima – suspirei do outro lado da linha.

- Ela vivia dizendo que sentia muito pela a briga entre ela e sua mãe. Pena que as duas se foram sem resolver tudo isso.

- Águas passadas. Tudo irrelevante agora. -  respondi sincero.

Preso ao laço familiar que me impedia de jogar aquela fonte de alergia fora, o esqueci na biblioteca numa gaveta de tranqueiras.

Uma semana depois vieram os sonhos.

No começo achei que era uma pura resposta do meu inconsciente a morte da minha tia. Sonhava com ela sobre mim feito uma pisadeira que me impedia de mover cada músculo do corpo. Seu rosto era muito mais novo do que eu me recordava e estava manchado de sangue. Ela segurava algo em uma das mãos... algo vivo. A coisa pulsava e se contorcia na mão da aparição e eu pude sentir seu cheiro pútrido, corroendo-me por dentro.

O mais aterrorizante é que ela enfiava essa bestialidade amorfa direto na minha garganta. Sempre me considerei equilibrado, mas esse sonho se tornou recorrente. Mais de uma vez acordei com a sensação de engasgo provocado por aquela massa pulsante do inferno. A coisa mudava de forma a cada sonho. Esse desespero noturno foi minando minha sanidade.

Agendei um horário com um especialista que culpou minha rotina estressante pelo probleminha. Uma receita aqui, uns remedinhos ali e pronto: me livrei da revolução grega de toda noite.


E assim foi por três anos. Quando esquecia das doses diárias de comprimidos multicoloridos, lá estava minha tia com a pequena entidade infernal para uma visitinha. Algumas vezes acordava com os estigmas do ataque em meu pescoço e com um leve e incomodo inchaço no meu estomago.

Mais uma consulta e as doses aumentaram, mas o efeito desaparecia a cada noite. Eu comecei a definhar emocionalmente. Dormia esperando o encontro. Acordava o sentindo.

Quando a medicina por fim deixou de fazer efeito, apelei para religião. Tentei todas ao meu alcance. Católica, protestantes das mais tradicionais às renovadas, candomblé, umbanda e espirita. Mas nenhuma delas me trouxe libertação. Eu não conseguia sair de casa. Não conseguia trabalhar. Não conseguia me comunicar com o mundo exterior.

Minha irmã me fez uma visita e ficou horrorizada ao ver o lixão que cultivava em casa. Jornais velhos, restos de comida e fezes espalhados pelos cômodos. O sindico a alertou sobre o atraso na minha fatura e por sorte eu ainda tinha o dinheiro do seguro desemprego para retirar. O suficiente para pagar a dívida e dar entrada numa casa de repouso.

Três refeições diárias, doses de calmante regularmente e equipe médica de prontidão como o panfleto garantia. Minha irmã veio me visitar com novidades. Ela havia conseguido uma bateria de testes no Instituto do Sono. Fiquei três dias sob observação, mas nada que os impressionassem. Apenas mais um caso de paralisia do sono. Um estado onde você acorda rápido demais para o cérebro perceber que está acordado, causando a paralisia e as alucinações.

Numa manhã ao acordar, ela estava lá no meu quarto. A coisa amorfa em sua mão pulsava sujando o chão com seu sangue.

Congelei!

Minha tia saltou sobre mim e abafou meu grito de horror inserindo a coisa pela minha garganta. Senti ele escorregando pelo meu esôfago até atingir o suco gástrico do meu estomago. Feito o serviço, a bruxa me deixou vomitando aos berros. Os enfermeiros vieram e me sedaram após algum sacrifício. Mas a coisa voltou no dia seguinte, e no outro também e assim tem sido.

Eu não suportei e fugi da clínica duas semanas depois.

Arrombei a porta de casa, pois minha chave estava com minha irmã. Corri para a biblioteca e resgatei a maldita agenda da gaveta de tranqueiras. Devorei as páginas e me apavorei ao ler o relato de minha tia.

“Ele vem toda noite. Sempre com aquele troço. Ninguém acredita! Todo dia. Eu sinto aqueles demônios dentro de mim. Eles ficam me dizendo que eu sou a porta. ”

Então reconheci a coisa amorfa em seus desenhos. Agora tudo fazia sentido! Havia um símbolo recorrente em todas as páginas. Uma espécie de gancho ou anzol. Em outras páginas havia um nome impronunciável rasurado. Achei um antigo cartão de visitas de um cemitério colado em uma página. O mesmo que minha mãe havia sido sepultada anos atrás. Mais precisamente em... em 1977!

Não era possível. Era? Era.

Busquei pela casa a caixa onde guardava os documentos de minha mãe. A encontrei em cima do meu guarda-roupas com os documentos pessoais dela. Certidão de casamento, de óbito e um caderninho onde ela anotava receitas. Peguei o caderninho e comprovei: Era a mesma letra!

Me sentei na cama para respirar e notei uma presença. Lá estava ela, segurando a coisa amorfa. Agora eu reconhecia seu rosto. Não era minha tia, mas a minha própria progenitora. Aquela agenda profana pertencia a minha mãe!

Ela pulou sobre mim com uma destreza sobrenatural e antes que eu percebesse, sua mão já estava dentro de minha boca, empurrando a coisa amorfa pela minha garganta enquanto eu sufocava. Assim que bateu no meu estomago, minha mãe sumiu como de costume.

Horrorizado e sem encontrar um refúgio contra esses ataques, fugi para a rua, vivendo pelas vielas desde então. Nunca no mesmo lugar. Abro caminho pelas pessoas na rua fugindo do espectro de minha mãe com a coisa em sua mão. Mas para o meu total descontentamento, a multidão não a intimida. Quem me vê agonizando pelas sarjetas acredita que eu estou tendo um ataque ou caindo de bêbado. Ninguém se importa. Agora sou um lixo humano à margem do que a sociedade aceita como normal.

Mas desta vez foi diferente. Após mais um ataque, cá estou eu caído no meio do centro comercial da cidade. As pessoas, que antes se limitavam a desviar de mim, agora se aglomeravam. Uns tentavam me ajudar, mas recuavam.

Ainda sentia a coisa descendo pela minha garganta. Ainda sentia seu gosto pútrido. Meu estomago parecia inchar e realmente estava inchando. A ponto de esmagar todos os meus órgãos e ossos. As pessoas fugiam em desespero. Desespero que há seis ou sete anos, um desses números cabalísticos, eu havia experimentado. Só agora eu percebi que nunca precisei fugir. Era inútil. Sempre foi. Com meu corpo prestes a arrebentar eu percebi.

Eu era a porta. E havia chegado o momento de abrir. ”

Por Willa Costa


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